Na primeira parte, como espero ter elucidado, pudemos ver que os problemas levantados pelos fãs não são realmente problemas, mas sim questões intrínsecas para a trama que Slott estava planejando desde a edição 600 de "Amazing Spider-Man" (de acordo com suas próprias palavras). Sendo este o caso, a pergunta se torna se existem problemas reais na conceitualização do Superior Homem Aranha. Ao meu ver, sim, e eles são: a já existência de um outro Superior Homem-Aranha; a necessidade de um mundo mais sombrio; e a levianidade da morte nos quadrinhos. Pelos dois últimos casos serem questões que dialogam muito fortemente com a nossa realidade, abrangerei inicialmente a existência de outro Homem-Aranha com os mesmos temas. Ele se chama Aranha Escarlate, e também é escrito por Christopher Yost.
Aranha Escarlate é a antiga identidade super-heroica de Ben Reilly, o clone perfeito de Peter Parker que tivemos a chance de acompanhar durante a Saga do Clone, que se encontra na posse de Kaine Parker, um (atualmente) perfeito clone de Peter que possui grande parte de suas memórias e todos os seus códigos morais, mas que devido a uma deformidade genética (recentemente curada) viveu enquanto vilão durante toda a sua vida e agora necessita se acostumar ao peso da consciência de ser um Parker com toda a sua bagagem histórica. Conceitualmente lembra alguém?
Durante seus anos de vilania, Kaine poderia ser considerado "Superior" em seu próprio mérito. Devido a sua anomalia genética, o primeiro clone bem sucedido de Parker possuía uma maior força e resistência do que tanto Ben quanto Peter. E, pela mesma razão, seu sentido de aranha evolui para terríveis visões do futuro, as quais ele lunaticamente buscava evitar. Após sua aparição e morte em Caçada Sinistra, o clone foi revivido pelas mãos de Ero - da mesma forma que o Homem-Aranha havia sido após enfrentar Morlun na história "O Outro" - e acabou sobre o controle do Chacal até ser mergulhado em uma poça que continha a cura para todos os infectados durante o evento "Ilha Aranha", que de alguma forma o acabou com sua degeneração celular, tornando-o uma cópia perfeita de Peter mas que, devido a todo o seu histórico, é capaz de cruzar a linha que o Aranha não é, caso não veja nenhuma outra solução. Desejando escapar de seu passado, Kaine começa a viajar em direção do México, sistematicamente atacando bandidos pelo seu caminho e roubando suas finanças para poder viver uma boa vida, quando acaba se encontrando uma adolescente quase morta cuja nova consciência o força a salvar, trilhando a partir desse momento um caminho que ele nunca imaginaria para o assassino que era: uma nova existência, uma segunda chance, uma chance para fazer o que considera ser o certo. Utilizando o uniforme que pegou emprestado de seu "irmão", ele passa a ser o vigilante mascarado Aranha Escarlate.
Os paralelos entre Kaine e Otto Parker são muitos para se ignorar: ambos conhecem o conceito de Grandes Poderes e Grandes Responsabilidades de Peter, mas o vivem de sua própria forma; ambos tem um passado que os incrimina e estão tendo uma segunda chance na vida, que utilizam para fazer aquilo que acreditam ser o correto e proteger as pessoas; ambos possuem o fantasma do Espetacular Homem-Aranha marcando cada uma de suas ações e buscam transpor isso e serem eles mesmos. As diferenças entre eles é que, mesmo tendo sido "planejado" desde a edição 600, o surgimento do Superior Homem-Aranha ocorre após o advento do novo Aranha Escarlate. E, apesar de serem em seus próprios níveis Peter Parker, Kaine é "livre" para ser sua própria pessoa, enquanto Octavius necessita continuar a existência de seu antecessor. Essas duas questões tiram a novidade de ver um antigo vilão tentando ser um super-herói. Além disso,os conflitos de Kaine em tentar ser uma pessoa melhor e sempre se encontrar em uma situação em que tem de retornar a seus velhos hábitos acabam sendo melhor narrada/apresentada do que a dualidade de Otto, que é quase inexistente em seu principal Periódico. Em suma, sua personagem chega perto de falhar em passar empatia. A selvageria nas ações do clone são explicadas pelo seu passado e situações, enquanto as de Otto nada mais são do que uma pessoa que não compreende os múltiplos significados da violência e o que as mesmas geram (mesmo ele tendo sido vitimas dela enquanto criança). O que nos leva ao próximo problema: por que o Homem-Aranha tem de ser mais sombrio?
Atualmente, os leitores e críticos de Quadrinhos apresentam os anos 90 como sendo uma década de excessos. Tudo necessitava ser grande: armas, músculos, vestimentas, penteados. Os heróis desta época em sua maioria lembram halterofilistas (por mais impraticável que isso fosse para suas atribuições), sejam homens ou mulheres. Pois bem, desde a virada do século, mais especificamente a partir do último quarto dos anos 2000, existe uma tendência de que as histórias em Quadrinhos necessitam ser mais sérias, "reais" e sombrias. Geralmente, essas questões refletem o o caráter da sociedade que nos encontramos, principalmente a sociedade norte-americana que contem a maior parte das grandes editoras famosas de massa (DC, Marvel, Image, Zenescope, Dark Horse etc). Durante essa época, os Estados Unidos se encontravam não apenas vivendo uma crise financeira graças a bolha imobiliária, como também ainda estavam dialogando com os Países do Oriente Médio a respeito de sua remoção de força militar graças as Guerras no Iraque e no Afeganistão. Compreendam que aqui não cabe julgar as ações do governo, apenas observa-las para entender como em um período de perdas, desconfiança e renovação surgem histórias como "Guerra Civil" (2006), "Hulk Contra o Mundo" (2007), "Invasão Secreta" (2008), "Reino Sombrio" (2009), "Cerco" (2010, que culmina no inicio da Era Heroica), "O Próprio Medo" (2011), culminando em outro confronto de heróis em "Vingadores vs. X-Men" (2012), e isso só na Marvel. Não ouso afirmar que os tempos ditaram o que deveria ser escrito, mas sim de que eles são interligados.
Durante esse período, as histórias do Homem-Aranha mudaram de tonalidade, indo do infame "Um Dia a Mais" ao mais bem aceito "Big Time". Durante esse tempo, muitas histórias foram contadas, com maiores ou menores graus de sucesso. Contudo, a vinda de Dan Slott e seu "Big Time" deram inicio a um momento inimaginável na vida do Cabeça de Teias. A entender: Peter Parker, até aquele presente momento, era preso pela sua necessidade de ser um homem qualquer. A sua "imaturidade" advém do fato de que, durante todos os anos que se passam, ele aparentemente nada de fato aprende pois, se o fizesse, grande parte das histórias seriam evitadas. Quantas vezes sua tia foi raptada? Quantas vezes ele jurou que deixaria de ser o Aracnídeo? Quantas brigas ele teve com Mary Jane que, até "Um dia a Mais" terminar, ainda era sua esposa? Quantas vezes ele foi demitido ou readmitido? E agora pergunte: quantos anos se passaram desde que ele se tornou um herói? Se ele aprendesse metade das lições que já lhe foram ensinadas (a compreender, mensagens que nos foram passadas via suas aventuras) e cumprisse metade de suas promessas, não passaria necessidade ou se "sacrificaria" para ser um super-herói. Mas Peter não podia fazer isso, pois se fizesse ele deixaria de ser um jovem comum para se tornar um homem adulto maduro, que entende plenamente os riscos e não fica tendo crises de identidade a cada segundo. Todos passam por esses momentos de perda, seja econômico, físico ou emocional. Todos aprendem a suportar e seguir em frente. Ele não. Mas, com o início de "Big Time", Slott colocou maior gravidade nas ações de Parker sem remover seu aspecto principal: o ideário de ser um homem comum capaz de vencer se for dado uma chance. E foi isso que ele fez em suas histórias, crescendo continuamente a cada narrativa até chegar o momento de sua morte. Nesse momento entra em jogo uma versão mais fria e violenta do herói que conhecemos. Por que? Não foi porque as histórias não poderiam ser contadas de outro jeito, pois grande parte das ações de Otto nada mais são do que extensões das lições que Peter poderia aprender em aventuras passadas como ele havia aprendido com Dan. Não foi para protagonista, pois todos sabem que ele voltara em breve. Não. Foi apenas para criar choque e tornar as histórias mais sombrias e maduras - algo "atual", "moderno" e a "tendencia" da maioria das narrativas, dando passados problemáticos a seus protagonistas apenas porquê - entregadas pelo mais imaturo dos adultos em caráter emocional. Sim, porque, enquanto Peter era preso pela necessidade, Otto é segurado pelo fantasma do antecessor. O desenvolvimento de ambos é estagnado pelo medo de mudanças, de que um Homem-Aranha diferente não tenha tanto sucesso com o público, logo suas vendas caiam. Então as personagens ficam presas dentro de uma roda existencial, em que desaprendem a aprender ou aprendem a desaprender continuamente, não aceitando a maturação emocional que já é mais que devida, chegando assim no último ponto que desejo fazer: a levianidade e falta de importância da morte nos quadrinhos.
A morte é um aspecto natural e intrínseco a vida. Tudo neste mundo nasce, se desenvolve e morre. Nossos pais, nossos filhos, nossas criações, nossas ideias, nossas relações, nossa forma de pensar. Ela é necessária para que novas coisas possam surgir a partir daquelas que se foram. Algumas pessoas dizem que nosso nascimento nada mais é do que a primeira morte. Cada momento em que nosso mundo se expande, uma morte aconteceu - a morte do nosso antigo eu. Morte não necessita ser compreendida apenas em seu sentido literal. Mas, não importa o quão filosófica ela seja, sua característica principal é que ela é definitiva. Não existe como retornar dela. O que quer que fosse deixou de ser para ser outra coisa, e não voltará a ser sua antiga forma porque seu novo aspecto já está incorporado em sua existência. A morte sempre muda as coisas, mesmo que não pareça. É por esta razão que muitos temem a morte. Tememos o desconhecido que ela sempre traz consigo.
No universo da literatura, a morte serve para ensinar algo aos personagens, agir como uma força motriz ou servir enquanto uma resolução. Quadrinhos deveriam seguir a mesma regra, mas o problema com as HQs é a necessidade de manutenção do Status Quo. Por que? Porque os personagens são mais fáceis de escrever e ler a partir do status quo. Enquanto leitores iniciantes, esperamos que a premissa que nos é apresentada das personagens estejam presentes para que possamos entender o que esta transcorrendo na história. Enquanto editora, necessitamos do status quo para poder termos mais leitores ou facilmente trocarmos escritores caso seja necessário. Enquanto escritores, o status quo serve enquanto um norte para começar as suas tramas.Agora, enquanto pessoas, o status quo é bom para nos trazer conforto e segurança. Se entendermos quadrinhos enquanto uma forma de escapismo, ler uma edição sobre perda pessoal quando alguém próximo a você faleceu pode ajudar na sua experiência ou atrapalhar no momento, mas saber que alguém passou por situação parecida e conseguiu supera-la é sempre encorajador. Então, quando uma personagem morre, isso deve significar algo para as pessoas que a cercam, sejam imaginadas ou não. Uma perda que necessita ser superada após um período de luto, pois a vida continua.
Infelizmente, a morte nos quadrinhos é feita atualmente apenas para gerar impacto, para significar que sua história é seria, é madura. O problema é que uma morte significa o fim para algo, no sentido que uma morte de personagem significa o fim de todas as possibilidades de escrever essa pessoa a não ser que em visões do passado, alucinações ou situações do tipo. O que ocorre então quando a morte é de alguém significativo, como uma personagem principal? O ideal é que outro entre em seu lugar, e passe a viver suas próprias experiências junto do leitor. O que ocorre, geralmente, é o retorno daquele personagem após um breve espaço de tempo, seja por pedido do público, seja por demanda de um novo escritor, mais principalmente é devido a seu nome estar tão ligado a algo que se torna extremamente difícil cogitar outra pessoa na situação. Assim, temos casos como a morte do Capitão America que, após gerar um momento interessante com Thor silenciando o mundo em respeito ao falecimento de seu amigo, apresenta o mesmo como estando apenas preso em uma linha do tempo alternativa. Isso gera uma aura de que "tudo vai estar bem no final " sem que a história tenha de mostrar que "tudo vai estar bem no final". Qualquer evento que conta com a morte de um personagem automaticamente é desconsiderada, com leitores apostando quanto tempo demorará para aquele indivíduo ressuscitar e escolhendo retornar aquele determinado periódico apenas quando tal fato ocorrer, ou nem mesmo isso. Este é o caso de Peter Parker / Espetacular Homem-Aranha. E, o mais intrigante é que, heróis caem e retornam a todo momento, mas e quanto as "pessoas normais" desse mundo que também são afetadas pelos eventos mundiais?
Concluindo, ao meu entender o Superior Homem-Aranha não é algo que devesse ter sido realizado através da pseudo-substituição da personagem principal, e sim através de uma maior evolução e desenvolvimento de Parker. Ele poderia chegar a decisão de que necessitava ser mais do que ele já estava sendo - na verdade, ele já havia tomado essa decisão logo após a morte de Martha Jameson, bastava continuar avançando. O drama advindo da decisão de fazer a mudança acaba então sendo um drama não natural, e sim artificial, imposto o qual até mesmo aqueles que podem gostar das histórias em seu conceito (meu caso) imaginar como melhor elas poderiam ser com um Parker que busca ser melhor do que já era por alguma razão fundamental, e não apenas por arrogância. Quer uma boa visão sobre isso? Leia a edição ligada a Era de Ultron. Ali observamos o que poderia ser uma boa versão de um Peter amargurado devido a fatalidade do destino, e partir sua busca daquela experiência para ser algo mais...
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