quarta-feira, 17 de julho de 2013

Período de Transição: A nova Geração e os Problemas do Superior Homem-Aranha, Parte II


Na primeira parte, como espero ter elucidado, pudemos ver que os problemas levantados pelos fãs não são realmente problemas, mas sim questões intrínsecas para a trama que Slott estava planejando desde a edição 600 de "Amazing Spider-Man" (de acordo com suas próprias palavras). Sendo este o caso, a pergunta se torna se existem problemas reais na conceitualização do Superior Homem Aranha. Ao meu ver, sim, e eles são: a já existência de um outro Superior Homem-Aranha; a necessidade de um mundo mais sombrio; e a levianidade da morte nos quadrinhos. Pelos dois últimos casos serem questões que dialogam muito fortemente com a nossa realidade, abrangerei inicialmente a existência de outro Homem-Aranha com os mesmos temas. Ele se chama Aranha Escarlate, e também é escrito por Christopher Yost.

Aranha Escarlate é a antiga identidade super-heroica de Ben Reilly, o clone perfeito de Peter Parker que tivemos a chance de acompanhar durante a Saga do Clone, que se encontra na posse de Kaine Parker, um (atualmente) perfeito clone de Peter que possui grande parte de suas memórias e todos os seus códigos morais, mas que devido a uma deformidade genética (recentemente curada) viveu enquanto vilão durante toda a sua vida e agora necessita se acostumar ao peso da consciência de ser um Parker com toda a sua bagagem histórica. Conceitualmente lembra alguém?

Durante seus anos de vilania, Kaine poderia ser considerado "Superior" em seu próprio mérito. Devido a sua anomalia genética, o primeiro clone bem sucedido de Parker possuía uma maior força e resistência do que tanto Ben quanto Peter. E, pela mesma razão, seu sentido de aranha evolui para terríveis visões do futuro, as quais ele lunaticamente buscava evitar. Após sua aparição e morte em Caçada Sinistra, o clone foi revivido pelas mãos de Ero - da mesma forma que o Homem-Aranha havia sido após enfrentar Morlun na história "O Outro" - e acabou sobre o controle do Chacal até ser mergulhado em uma poça que continha a cura para todos os infectados durante o evento "Ilha Aranha", que de alguma forma o acabou com sua degeneração celular, tornando-o uma cópia perfeita de Peter mas que, devido a todo o seu histórico, é capaz de cruzar a linha que o Aranha não é, caso não veja nenhuma outra solução. Desejando escapar de seu passado, Kaine começa a viajar em direção do México, sistematicamente atacando bandidos pelo seu caminho e roubando suas finanças para poder viver uma boa vida, quando acaba se encontrando uma adolescente quase morta cuja nova consciência o força a salvar, trilhando a partir desse momento um caminho que ele nunca imaginaria para o assassino que era: uma nova existência, uma segunda chance, uma chance para fazer o que considera ser o certo. Utilizando o uniforme que pegou emprestado de seu "irmão", ele passa a ser o vigilante mascarado Aranha Escarlate.

Os paralelos entre Kaine e Otto Parker são muitos para se ignorar: ambos conhecem o conceito de Grandes Poderes e Grandes Responsabilidades de Peter, mas o vivem de sua própria forma; ambos tem um passado que os incrimina e estão tendo uma segunda chance na vida, que utilizam para fazer aquilo que acreditam ser o correto e proteger as pessoas; ambos possuem o fantasma do Espetacular Homem-Aranha marcando cada uma de suas ações e buscam transpor isso e serem eles mesmos. As diferenças entre eles é que, mesmo tendo sido "planejado" desde a edição 600, o surgimento do Superior Homem-Aranha ocorre após o advento do novo Aranha Escarlate. E, apesar de serem em seus próprios níveis Peter Parker, Kaine é "livre" para ser sua própria pessoa, enquanto Octavius necessita continuar a existência de seu antecessor. Essas duas questões tiram a novidade de ver um antigo vilão tentando ser um super-herói.  Além disso,os conflitos de Kaine em tentar ser uma pessoa melhor e sempre se encontrar em uma situação em que tem de retornar a seus velhos hábitos  acabam sendo melhor narrada/apresentada do que a dualidade de Otto, que é quase inexistente em seu principal Periódico. Em suma, sua personagem chega perto de falhar em passar empatia. A selvageria nas ações do clone são explicadas pelo seu passado e situações, enquanto  as de Otto nada mais são do que uma pessoa que não compreende os múltiplos significados da violência e o que as mesmas geram (mesmo ele tendo sido vitimas dela enquanto criança). O que nos leva ao próximo problema: por que o Homem-Aranha tem de ser mais sombrio?

Atualmente, os leitores e críticos de Quadrinhos apresentam os anos 90 como sendo uma década de excessos. Tudo necessitava ser grande: armas, músculos, vestimentas, penteados. Os heróis desta época em sua maioria lembram halterofilistas (por mais impraticável que isso fosse para suas atribuições), sejam homens ou mulheres. Pois bem, desde a virada do século, mais especificamente a partir do último quarto dos anos 2000, existe uma tendência de que as histórias em Quadrinhos necessitam ser mais sérias, "reais" e sombrias. Geralmente, essas questões refletem o o caráter da sociedade que nos encontramos, principalmente a sociedade norte-americana que contem a maior parte das grandes editoras famosas de massa (DC, Marvel, Image, Zenescope, Dark Horse etc). Durante essa época, os Estados Unidos se encontravam não apenas vivendo uma crise financeira graças a bolha imobiliária, como também ainda estavam dialogando com os Países do Oriente Médio a respeito de sua remoção de força militar graças as Guerras no Iraque e no Afeganistão. Compreendam que aqui não cabe julgar as ações do governo, apenas observa-las para entender como em um período de perdas, desconfiança e renovação surgem histórias como "Guerra Civil" (2006), "Hulk Contra o Mundo" (2007), "Invasão Secreta" (2008), "Reino Sombrio" (2009),  "Cerco" (2010, que culmina no inicio da Era Heroica), "O Próprio Medo" (2011), culminando em outro confronto de heróis em "Vingadores vs. X-Men" (2012), e isso só na Marvel. Não ouso afirmar que os tempos ditaram o que deveria ser escrito, mas sim de que eles são interligados.

Durante esse período, as histórias do Homem-Aranha mudaram de tonalidade, indo do infame "Um Dia a Mais" ao mais bem aceito "Big Time". Durante esse tempo, muitas histórias foram contadas, com maiores ou menores graus de sucesso. Contudo, a vinda de Dan Slott e seu "Big Time" deram inicio a um momento inimaginável na vida do Cabeça de Teias. A entender: Peter Parker, até aquele presente momento, era preso  pela sua necessidade de ser um homem qualquer. A sua "imaturidade" advém do fato de que, durante todos os anos que se passam, ele aparentemente nada de fato aprende pois, se o fizesse, grande parte das histórias seriam evitadas. Quantas vezes sua tia foi raptada? Quantas vezes ele jurou que deixaria de ser o Aracnídeo? Quantas brigas ele teve com Mary Jane que, até "Um dia a Mais" terminar, ainda era sua esposa? Quantas vezes ele foi demitido ou readmitido? E agora pergunte: quantos anos se passaram desde que ele se tornou um herói? Se ele aprendesse metade das lições que já lhe foram ensinadas (a compreender, mensagens que nos foram passadas via suas aventuras) e cumprisse metade de suas promessas, não passaria necessidade ou se "sacrificaria" para ser um super-herói. Mas Peter não podia fazer isso, pois se fizesse ele deixaria de ser um jovem comum para se tornar um homem adulto maduro, que entende plenamente os riscos e não fica tendo crises de identidade a cada segundo. Todos passam por esses momentos de perda, seja econômico, físico ou emocional. Todos aprendem a suportar e seguir em frente. Ele não. Mas, com o início de "Big Time", Slott colocou maior gravidade nas ações de Parker sem remover seu aspecto principal: o ideário de ser um homem comum capaz de vencer se for dado uma chance. E foi isso que ele fez em suas histórias, crescendo continuamente a cada narrativa até chegar o momento de sua morte. Nesse momento entra em jogo uma versão mais fria e violenta do herói que conhecemos. Por que? Não foi porque as histórias não poderiam ser contadas de outro jeito, pois grande parte das ações de Otto nada mais são do que extensões das lições que Peter poderia aprender em aventuras passadas como ele havia aprendido com Dan. Não foi para protagonista, pois todos sabem que ele voltara em breve. Não. Foi apenas para criar choque e tornar as histórias mais sombrias e maduras - algo "atual", "moderno"  e a "tendencia" da maioria das narrativas, dando passados problemáticos a seus protagonistas apenas porquê - entregadas pelo mais imaturo dos adultos em caráter emocional. Sim, porque, enquanto Peter era preso pela necessidade, Otto é segurado pelo fantasma do antecessor. O desenvolvimento de ambos é estagnado pelo medo de mudanças, de que um Homem-Aranha diferente não tenha tanto sucesso com o público, logo suas vendas caiam. Então as personagens ficam presas dentro de uma roda existencial, em que desaprendem a aprender ou aprendem a desaprender continuamente, não aceitando a maturação emocional que já é mais que devida, chegando assim no último ponto que desejo fazer: a levianidade e falta de importância da morte nos quadrinhos.

A morte é um aspecto natural e intrínseco a vida. Tudo neste mundo nasce, se desenvolve e morre. Nossos pais, nossos filhos, nossas criações, nossas ideias, nossas relações, nossa forma de pensar. Ela é necessária para que novas coisas possam surgir a partir daquelas que se foram. Algumas pessoas dizem que nosso nascimento nada mais é do que a primeira morte. Cada momento em que nosso mundo se expande, uma morte aconteceu - a morte do nosso antigo eu. Morte não necessita ser compreendida apenas em seu sentido literal. Mas, não importa o quão filosófica ela seja, sua característica principal é que ela é definitiva. Não existe como retornar dela. O que quer que fosse deixou de ser para ser outra coisa, e não voltará a ser sua antiga forma porque seu novo aspecto já está incorporado em sua existência. A morte sempre muda as coisas, mesmo que não pareça. É por esta razão que muitos temem a morte. Tememos o desconhecido que ela sempre traz consigo.

No universo da literatura, a morte serve para ensinar algo aos personagens, agir como uma força motriz ou servir enquanto uma resolução. Quadrinhos deveriam seguir a mesma regra, mas o problema com as HQs é a necessidade de manutenção do Status Quo. Por que? Porque os personagens são mais fáceis de escrever e ler a partir do status quo. Enquanto leitores iniciantes, esperamos que a premissa que nos é apresentada das personagens estejam presentes para que possamos entender o que esta transcorrendo na história. Enquanto editora, necessitamos do status quo para poder termos mais leitores ou facilmente trocarmos escritores caso seja necessário. Enquanto escritores, o status quo serve enquanto um norte para começar as suas tramas.Agora, enquanto pessoas, o status quo é bom para nos trazer conforto e segurança. Se entendermos quadrinhos enquanto uma forma de escapismo, ler uma edição sobre perda pessoal quando alguém próximo a você faleceu pode ajudar na sua experiência ou atrapalhar no momento, mas saber que alguém passou por situação parecida e conseguiu supera-la é sempre encorajador. Então, quando uma personagem morre, isso deve significar algo para as pessoas que a cercam, sejam imaginadas ou não. Uma perda que necessita ser superada após um período de luto, pois a vida continua.

Infelizmente, a morte nos quadrinhos é feita atualmente apenas para gerar impacto, para significar que sua história é seria, é madura. O problema é que uma morte significa o fim para algo, no sentido que uma morte de personagem significa o fim de todas as possibilidades de escrever essa pessoa a não ser que em visões do passado, alucinações ou situações do tipo. O que ocorre então quando a morte é de alguém significativo, como uma personagem principal? O ideal é que outro entre em seu lugar, e passe a viver suas próprias experiências junto do leitor. O que ocorre, geralmente, é o retorno daquele personagem após um breve espaço de tempo, seja por pedido do público, seja por demanda de um novo escritor, mais principalmente é devido a seu nome estar tão ligado a algo que se torna extremamente difícil cogitar outra pessoa na situação.  Assim, temos casos como a morte do Capitão America que, após gerar um momento interessante com Thor silenciando o mundo em respeito ao falecimento de seu amigo, apresenta o mesmo como estando apenas preso em uma linha do tempo alternativa. Isso gera uma aura de que "tudo vai estar bem no final " sem que a história tenha de mostrar que "tudo vai estar bem no final". Qualquer evento que conta com a morte de um personagem automaticamente é desconsiderada, com leitores apostando quanto tempo demorará para aquele indivíduo ressuscitar e escolhendo retornar aquele determinado periódico apenas quando tal fato ocorrer, ou nem mesmo isso. Este é o caso de Peter Parker / Espetacular Homem-Aranha. E, o mais intrigante é que, heróis caem e retornam a todo momento, mas e quanto as "pessoas normais" desse mundo que também são afetadas pelos eventos mundiais?

Concluindo, ao meu entender o Superior Homem-Aranha não é algo que devesse ter sido realizado através da pseudo-substituição da personagem principal, e sim através de uma maior evolução e desenvolvimento de Parker. Ele poderia chegar a decisão de que necessitava ser mais do que ele já estava sendo - na verdade, ele já havia tomado essa decisão logo após a morte de Martha Jameson, bastava continuar avançando. O drama advindo da decisão de fazer a mudança acaba então sendo um drama não natural, e sim artificial, imposto o qual até mesmo aqueles que podem gostar das histórias em seu conceito (meu caso) imaginar como melhor elas poderiam ser com um Parker que busca ser melhor do que já era por alguma razão fundamental, e não apenas por arrogância. Quer uma boa visão sobre isso? Leia a edição ligada a Era de Ultron. Ali observamos o que poderia ser uma boa versão de um Peter amargurado devido a fatalidade do destino, e partir sua busca daquela experiência para ser algo mais...

Período de Transição: A nova Geração e os Problemas do Superior Homem-Aranha, Parte I

Começar a ler uma revista em quadrinhos nos tempos atuais não é tão fácil quanto parece. Elas geralmente fazem parte de uma história que geralmente não é possível de ser contada em apenas uma edição, necessitando de dois ou mais números consecutivos para que a narrativa se resolva, o que pode causar um pequeno senso de desnorteamento ao descobrir que os eventos que esta acompanhando começaram a se desdobrar a duas se não mais edições atrás, e as personagens possuem relações intrínsecas datadas de no mínimo dez. 

Escrever e desenvolver uma é mais difícil ainda, pois você tem de sempre manter o interesse de seus leitores sem revelar mais do que deseja de sua trama, a fim de que os mesmos continuem retornando, ao mesmo tempo em que tem de trabalhar para que novos espectadores passem a acompanhar seu periódico. E quanto maior for a bagagem do quadrinho pior, pois é necessário não apenas os passos anteriores, como também manter a integridade da continuidade ao mesmo tempo em que busca tecer novos contos. 

"Criticar", no sentido pejorativo da palavra, contudo, é extremamente "fácil". Basta observar algo que repudia, apontar - apresentando a outros o quão "errado" é aquilo na sua visão - e pronto. Não importa se esse aspecto que não lhe agradou é ou não importante para o desenvolvimento da trama e/ou a direção idealizada pelos seus produtores. Desgostar e simplesmente discordar acabou se tornando sinônimo de crítica, dando um peso diferente a frase "todo mundo é um crítico". O que se torna ainda mais presente de acordo com o número de indivíduos que se importam com o objeto criticado. Mas na verdade, seu real significado advém da possibilidade das pessoas observarem uma determinada questão ou situação, entender seus pontos positivos e negativos, como/porque foi influenciada pelo seu tempo e contemporâneos, e finalmente julga-la justamente por seus méritos e falhas.

Com isso dito, vamos finalmente ao centro desse artigo: qual pode ser dito como sendo o verdadeiro problema do Superior Homem-Aranha, personagem recém introduzido pela Marvel Comics pelo escritor Dan Slott e primordialmente escrito pelo mesmo e Christopher Yost nos Quadrinhos "The Superior Spider-Man" e "Avenging Spider-Man" respectivamente, que recebeu dos fãs do Espetacular Homem-Aranha criticas ferozes - que incluíam ameaças veladas ou não a Slott. A partir de agora, hei de tentar entender a razão das mudanças na revista, da raiva de alguns de seus leitores e os reais problemas da premissa construída. Cabe dizer que existem os chamados SPOILERS do "novo" periódico neste documento daqui para frente, então continue apenas se tais detalhes não lhe importarem.

Comecemos a conversa apresentando a mudança em si. Em Dezembro de 2012, durante o arco chamado de "Dying Wish" (Último Desejo), o Vilão Doutor Octopus conseguiu realizar uma mudança de corpo com o Herói Homem-Aranha. A razão: seu corpo velho e decrépito estava morrendo devido a anos de confrontos e espancamento contra super-heróis. Logo, com essa mudança, Otto Octavius ganhava um jovem e poderoso corpo, e Peter Parker ficava preso a uma inescapável sentença de morte. Então, em uma corrida contra o tempo, Parker tenta reverter sua situação antes que Octavius abuse de seu corpo e identidade, e falha. Mas, em seus últimos momentos, ele consegue fazer Otto vivenciar cada um dos momentos que definiram sua vida, forçando-o a entender que com Grandes Poderes vem Grandes Responsabilidades. Assim, Peter morre na forma física de Doc Ock, mas seu espirito mantem-se vivo nas memorias de seu antigo corpo, com seu novo usuário jurando proteger a cidade e as pessoas importantes a seu falecido inimigo como o Superior Homem-Aranha.

Dessa forma, temos a premissa da nova HQ: um supervilão que conseguiu uma segunda chance na vida para viver todo o seu potencial previamente desperdiçado; um super-herói que não é um herói mas que tenta assim se tornar devido a promessa feita a alguém que (re)definiu sua vida em seu leito de morte; e uma pessoa vivendo com a identidade de outra, arcando com todos os ônus e bônus que essa mudança acarreta. É um "bom" cenário de substituição do herói, do qual velhos leitores já estão acostumados - isso aconteceu com o próprio Homem-Aranha, o Batman, o Homem de Ferro, e mais recentemente com o Capitão América. A variável é que o herói nunca havia sido "permanentemente" substituído por um vilão, e o mesmo  "tinha" de viver a vida do homem por detrás da máscara. As possibilidades de histórias que se abrem com esse cenário principalmente focam na forma diferente dos novo heróis agirem perante a situações que seus predecessores de certa forma já vivenciaram, ou como eles divergem daquilo que é esperado deles. Os dois principais escritores desta nova "era" tocam nesses aspectos de suas próprias formas, com Christopher focando na dualidade psicológica que é para um indivíduo ter vivido duas vidas completamente diferentes,  que formaram dois homens diametricamente opostos, e a luta interna que é harmoniza-las, enquanto Dan nos mostra o efeito de outra pessoa vivendo uma vida, resolvendo dramas antigos e apresentando novos. Então, qual é o problema?

De acordo com os fãs, o problema começa na forma com a qual Parker morreu, indo para o fato de que um de seus vilões venceu e está vivendo a sua vida, terminando no fato de que este não é o Homem-Aranha. Começarei do final.

Este realmente não é o Espetacular Homem-Aranha, é o Superior Homem-Aranha. A troca do adjetivo não é uma a ser usada levianamente, mas sim para ilustrar a forma com a qual Otto se considera, deixando claro o tamanho de seu ego e reforçando o tamanho da sombra da qual não consegue fugir. Ele crê ser superior pelo simples fato de ter ganho uma vez contra alguém que o venceu diversas vezes consecutivas. Ou seja, ele não é o superior, e sim foi durante um pequeno momento, dentre diversos na qual foi o superado. A necessidade de vocalizar e reafirmar essa diferença demonstra o quão verdadeiramente inseguro é, diminuindo sua metodologia enquanto um todo a ser resumida de "este é o melhor jeito" para "este é o meu jeito". Resolver as situações de outras formas não é ser superior, e sim ser diferente. Mas afirmar ser o Novo Homem-Aranha significa que as pessoas ainda podem enxergar o anterior indiretamente como seu igual, algo que feriria seu ego enormemente. Ou seja, com sua vitória, Octavius necessita sempre estar vencendo, pois do contrário ele não será um Superior, e sim apenas um Novo, um Outro.

Quanto o triunfo do vilão sobre o herói. Tradicionalmente, uma história se estrutura em três atos: apresentação das personagens e da situação; problematização/desenvolvimento da trama; e resolução dos problemas. Apesar disso não ser obrigatório, muitos aderem a essa ordem devido a maior facilidade de  se escrever e do público entender o que está acontecendo. Isso, contudo, não impede dos atos se dividirem em arcos menores, que também seguem a mesma racionalização. Dessa forma, obtemos uma grande cronica  coesa que liga todas as suas partes a uma história maior. Esta é uma forma de pensar um evento do qual planeja escrever, podendo estender e/ou reduzir os demais acontecimentos de acordo com o interesse  dos leitores. Dentro dessa lógica, a fase do Superior Homem-Aranha nada mais é do que uma das etapas de um segundo ato dramático, onde o herói titular sofre uma derrota e a situação parece completamente perdida, sem nenhuma chance de retorno, cuja cronica tem seu início no terceiro ato e o aprendizado modifica o herói, fazendo-o triunfar sobre o vilão no final. Ou seja, o clássico Homem-Aranha está fadado a retornar, assim como sua contraparte Superior ser derrotada por sua própria arrogância.

Por fim, a forma com a qual Peter faleceu. Em 2011, uma história parecida veio a tona - chamada de "A Morte do Homem-Aranha", escrita por Brian Michael Bendis - que contava como Peter Parker do Universo 1610, também conhecido como Ultimate - morre heroicamente salvando seus entes queridos devido a conspiração de diversos fatores que fugiam ao seu controle, como ser baleado pelo Justiceiro e a fuga de seus vilões que formaram um Sexteto Sinistro. Este falecer de Peter ressoou forte, devido ao fato de que as mortes nesta dimensão (1610) tem sido permanentes até então. Assim, uma vez que Bendis não poderia reviver Parker de nenhuma forma, a história foi contada apresentado como os pontos fortes da personagem são muito maiores do que suas imaginadas fraquezas, tendo seu passar ecoando fortemente nas próprias interações entre os demais heróis com outros, si mesmos e o mundo. Mas, contar esse tipo de história nunca foi o objetivo de Dan Slott. Logo, causar um duelo realmente épico entre Peter-Octopus e Otto-Aranha causaria o público (não nós, mas os transeuntes regulares do universo 616) a questionar quem era o herói ou vilão entre os dois, botando ainda mais em cheque as decisões do Superior Homem-Aranha. Até o fim da luta, Otto apenas fingia ser um herói. É a percepção de quem ele foi, e de quem Parker era até seus "últimos momentos" que deve lhe impulsionar a pelo menos tentar fazer o que é certo, não apenas com sua vida mas também com aquela que ele se apossou. Fazer isso com diversa pessoas lhe questionando a torto e esquerdo simplesmente o faria retornar rapidamente a antigos hábitos, pois isso é quem ele ainda é no fim das contas - não haveria tempo suficiente para que Otto Parker crescesse enquanto alguém singular. A morte dele foi digna, agindo como sempre agiu, e, mais importante no momento em que ocorreu, dentro do contexto que a história necessitava para continuar.


Continua na Parte II


Podemos ver então que, como espero ter elucidado, os problemas apresentados pelos fãs não são realmente problemas, e sim questões intrínsecas a trama que Slott estava planejando desde a edição 600 de "Amazing Spider-Man" (de acordo com suas próprias palavras). Neste caso, existiriam problemas reais na conceitualização do Superior Homem-Aranha? Ao meu ver sim, e eles são: a existência de outro Superior Homem-Aranha; a necessidade de um mundo mais sombrio; e a levianidade da morte.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Bem Vindos!


Olá e sejam bem vindos ao Planeswalker! 

Este é um Blog voltado para a discussão e o debate de assuntos relacionados a questões Lúdicas da vida, principalmente Jogos e Entretenimento, sejam eles virtuais ou não. Seu nome deriva tanto da enorme variedade de entretenimento que podemos encontrar - cada um com suas próprias peculiaridades - quanto pela possibilidades de pensarmos, entendermos e dialogarmos com as mais diferentes coisas que transcorrem de acordo com as apresentações que entram e saem de foco diariamente. Por esta razão, vocês encontrarão aqui um ou mais artigos relacionados a determinado Filme, Programa, Jogo ou Revista, assim como editoriais que abordam, através de uma pergunta, um tema mais abrangente. 

Cabe aqui anunciar que este Blog será atualizado de acordo com a disponibilidade para escrever, do material de ser adquirido, e do interesse do autor em tratar do assunto. Tentarei ser abrangente, mas não esperem uma gigantesca revisão de literatura apenas porque um determinado livro foi tratado. Em contrapartida, uma vez que um assunto ou tema, no caso deste exemplo um livro, tenha emergido, sua discussão e debate podem e devem ser contínuos, no sentido de que as opiniões - por mais divergente que sejam - serão ouvidas e respeitadas. Isso porque, apesar de aqui se encontrar primariamente uma opinião, a natureza da rede felizmente dita e permite que outras vozes se somem no intuito de reforçar ou modificar os ideários daqueles que participam.

Por fim, cabe aqui reforçar que uma opinião é exatamente isso: uma opinião. Apesar de buscar me manter com dados factuais quando estiver tratando de algo, invariavelmente estarei observando este fato sobre um determinado angulo. Então, no intuito de evitar problemas, devo reunir a maior quantidade de dados e informações possíveis para sustentar o argumento. Da mesma forma, espero que opiniões contrárias sejam capazes de se embasar, para que o debate transcorra sem se degenerar no puro e simples achismo.

Bem, é isso pessoal. Tenham uma boa Leitura!