quarta-feira, 17 de julho de 2013

Período de Transição: A nova Geração e os Problemas do Superior Homem-Aranha, Parte I

Começar a ler uma revista em quadrinhos nos tempos atuais não é tão fácil quanto parece. Elas geralmente fazem parte de uma história que geralmente não é possível de ser contada em apenas uma edição, necessitando de dois ou mais números consecutivos para que a narrativa se resolva, o que pode causar um pequeno senso de desnorteamento ao descobrir que os eventos que esta acompanhando começaram a se desdobrar a duas se não mais edições atrás, e as personagens possuem relações intrínsecas datadas de no mínimo dez. 

Escrever e desenvolver uma é mais difícil ainda, pois você tem de sempre manter o interesse de seus leitores sem revelar mais do que deseja de sua trama, a fim de que os mesmos continuem retornando, ao mesmo tempo em que tem de trabalhar para que novos espectadores passem a acompanhar seu periódico. E quanto maior for a bagagem do quadrinho pior, pois é necessário não apenas os passos anteriores, como também manter a integridade da continuidade ao mesmo tempo em que busca tecer novos contos. 

"Criticar", no sentido pejorativo da palavra, contudo, é extremamente "fácil". Basta observar algo que repudia, apontar - apresentando a outros o quão "errado" é aquilo na sua visão - e pronto. Não importa se esse aspecto que não lhe agradou é ou não importante para o desenvolvimento da trama e/ou a direção idealizada pelos seus produtores. Desgostar e simplesmente discordar acabou se tornando sinônimo de crítica, dando um peso diferente a frase "todo mundo é um crítico". O que se torna ainda mais presente de acordo com o número de indivíduos que se importam com o objeto criticado. Mas na verdade, seu real significado advém da possibilidade das pessoas observarem uma determinada questão ou situação, entender seus pontos positivos e negativos, como/porque foi influenciada pelo seu tempo e contemporâneos, e finalmente julga-la justamente por seus méritos e falhas.

Com isso dito, vamos finalmente ao centro desse artigo: qual pode ser dito como sendo o verdadeiro problema do Superior Homem-Aranha, personagem recém introduzido pela Marvel Comics pelo escritor Dan Slott e primordialmente escrito pelo mesmo e Christopher Yost nos Quadrinhos "The Superior Spider-Man" e "Avenging Spider-Man" respectivamente, que recebeu dos fãs do Espetacular Homem-Aranha criticas ferozes - que incluíam ameaças veladas ou não a Slott. A partir de agora, hei de tentar entender a razão das mudanças na revista, da raiva de alguns de seus leitores e os reais problemas da premissa construída. Cabe dizer que existem os chamados SPOILERS do "novo" periódico neste documento daqui para frente, então continue apenas se tais detalhes não lhe importarem.

Comecemos a conversa apresentando a mudança em si. Em Dezembro de 2012, durante o arco chamado de "Dying Wish" (Último Desejo), o Vilão Doutor Octopus conseguiu realizar uma mudança de corpo com o Herói Homem-Aranha. A razão: seu corpo velho e decrépito estava morrendo devido a anos de confrontos e espancamento contra super-heróis. Logo, com essa mudança, Otto Octavius ganhava um jovem e poderoso corpo, e Peter Parker ficava preso a uma inescapável sentença de morte. Então, em uma corrida contra o tempo, Parker tenta reverter sua situação antes que Octavius abuse de seu corpo e identidade, e falha. Mas, em seus últimos momentos, ele consegue fazer Otto vivenciar cada um dos momentos que definiram sua vida, forçando-o a entender que com Grandes Poderes vem Grandes Responsabilidades. Assim, Peter morre na forma física de Doc Ock, mas seu espirito mantem-se vivo nas memorias de seu antigo corpo, com seu novo usuário jurando proteger a cidade e as pessoas importantes a seu falecido inimigo como o Superior Homem-Aranha.

Dessa forma, temos a premissa da nova HQ: um supervilão que conseguiu uma segunda chance na vida para viver todo o seu potencial previamente desperdiçado; um super-herói que não é um herói mas que tenta assim se tornar devido a promessa feita a alguém que (re)definiu sua vida em seu leito de morte; e uma pessoa vivendo com a identidade de outra, arcando com todos os ônus e bônus que essa mudança acarreta. É um "bom" cenário de substituição do herói, do qual velhos leitores já estão acostumados - isso aconteceu com o próprio Homem-Aranha, o Batman, o Homem de Ferro, e mais recentemente com o Capitão América. A variável é que o herói nunca havia sido "permanentemente" substituído por um vilão, e o mesmo  "tinha" de viver a vida do homem por detrás da máscara. As possibilidades de histórias que se abrem com esse cenário principalmente focam na forma diferente dos novo heróis agirem perante a situações que seus predecessores de certa forma já vivenciaram, ou como eles divergem daquilo que é esperado deles. Os dois principais escritores desta nova "era" tocam nesses aspectos de suas próprias formas, com Christopher focando na dualidade psicológica que é para um indivíduo ter vivido duas vidas completamente diferentes,  que formaram dois homens diametricamente opostos, e a luta interna que é harmoniza-las, enquanto Dan nos mostra o efeito de outra pessoa vivendo uma vida, resolvendo dramas antigos e apresentando novos. Então, qual é o problema?

De acordo com os fãs, o problema começa na forma com a qual Parker morreu, indo para o fato de que um de seus vilões venceu e está vivendo a sua vida, terminando no fato de que este não é o Homem-Aranha. Começarei do final.

Este realmente não é o Espetacular Homem-Aranha, é o Superior Homem-Aranha. A troca do adjetivo não é uma a ser usada levianamente, mas sim para ilustrar a forma com a qual Otto se considera, deixando claro o tamanho de seu ego e reforçando o tamanho da sombra da qual não consegue fugir. Ele crê ser superior pelo simples fato de ter ganho uma vez contra alguém que o venceu diversas vezes consecutivas. Ou seja, ele não é o superior, e sim foi durante um pequeno momento, dentre diversos na qual foi o superado. A necessidade de vocalizar e reafirmar essa diferença demonstra o quão verdadeiramente inseguro é, diminuindo sua metodologia enquanto um todo a ser resumida de "este é o melhor jeito" para "este é o meu jeito". Resolver as situações de outras formas não é ser superior, e sim ser diferente. Mas afirmar ser o Novo Homem-Aranha significa que as pessoas ainda podem enxergar o anterior indiretamente como seu igual, algo que feriria seu ego enormemente. Ou seja, com sua vitória, Octavius necessita sempre estar vencendo, pois do contrário ele não será um Superior, e sim apenas um Novo, um Outro.

Quanto o triunfo do vilão sobre o herói. Tradicionalmente, uma história se estrutura em três atos: apresentação das personagens e da situação; problematização/desenvolvimento da trama; e resolução dos problemas. Apesar disso não ser obrigatório, muitos aderem a essa ordem devido a maior facilidade de  se escrever e do público entender o que está acontecendo. Isso, contudo, não impede dos atos se dividirem em arcos menores, que também seguem a mesma racionalização. Dessa forma, obtemos uma grande cronica  coesa que liga todas as suas partes a uma história maior. Esta é uma forma de pensar um evento do qual planeja escrever, podendo estender e/ou reduzir os demais acontecimentos de acordo com o interesse  dos leitores. Dentro dessa lógica, a fase do Superior Homem-Aranha nada mais é do que uma das etapas de um segundo ato dramático, onde o herói titular sofre uma derrota e a situação parece completamente perdida, sem nenhuma chance de retorno, cuja cronica tem seu início no terceiro ato e o aprendizado modifica o herói, fazendo-o triunfar sobre o vilão no final. Ou seja, o clássico Homem-Aranha está fadado a retornar, assim como sua contraparte Superior ser derrotada por sua própria arrogância.

Por fim, a forma com a qual Peter faleceu. Em 2011, uma história parecida veio a tona - chamada de "A Morte do Homem-Aranha", escrita por Brian Michael Bendis - que contava como Peter Parker do Universo 1610, também conhecido como Ultimate - morre heroicamente salvando seus entes queridos devido a conspiração de diversos fatores que fugiam ao seu controle, como ser baleado pelo Justiceiro e a fuga de seus vilões que formaram um Sexteto Sinistro. Este falecer de Peter ressoou forte, devido ao fato de que as mortes nesta dimensão (1610) tem sido permanentes até então. Assim, uma vez que Bendis não poderia reviver Parker de nenhuma forma, a história foi contada apresentado como os pontos fortes da personagem são muito maiores do que suas imaginadas fraquezas, tendo seu passar ecoando fortemente nas próprias interações entre os demais heróis com outros, si mesmos e o mundo. Mas, contar esse tipo de história nunca foi o objetivo de Dan Slott. Logo, causar um duelo realmente épico entre Peter-Octopus e Otto-Aranha causaria o público (não nós, mas os transeuntes regulares do universo 616) a questionar quem era o herói ou vilão entre os dois, botando ainda mais em cheque as decisões do Superior Homem-Aranha. Até o fim da luta, Otto apenas fingia ser um herói. É a percepção de quem ele foi, e de quem Parker era até seus "últimos momentos" que deve lhe impulsionar a pelo menos tentar fazer o que é certo, não apenas com sua vida mas também com aquela que ele se apossou. Fazer isso com diversa pessoas lhe questionando a torto e esquerdo simplesmente o faria retornar rapidamente a antigos hábitos, pois isso é quem ele ainda é no fim das contas - não haveria tempo suficiente para que Otto Parker crescesse enquanto alguém singular. A morte dele foi digna, agindo como sempre agiu, e, mais importante no momento em que ocorreu, dentro do contexto que a história necessitava para continuar.


Continua na Parte II


Podemos ver então que, como espero ter elucidado, os problemas apresentados pelos fãs não são realmente problemas, e sim questões intrínsecas a trama que Slott estava planejando desde a edição 600 de "Amazing Spider-Man" (de acordo com suas próprias palavras). Neste caso, existiriam problemas reais na conceitualização do Superior Homem-Aranha? Ao meu ver sim, e eles são: a existência de outro Superior Homem-Aranha; a necessidade de um mundo mais sombrio; e a levianidade da morte.

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